segunda-feira, 5 de julho de 2010

Dad.

Desde pequena que nos separaram, poucos momentos passei contigo, poucas lembranças tenho mas saudades é o que não faltam!
Sempre te vi como um homem frio, que queria ter sempre respeito quando também respeitava alguém. Gostava de ser tratado como toda a gente, enfim sempre te vi como um homem justo.
Além de um homem eras também meu Pai, homem da minha Mãe e também Pai da minha Irmã e no que se referia a homem de família não eras lá muito bom exemplo, pois fizeste a minha Mãe sofrer e principalmente as tuas duas filhas.
Quando nos separaram senti que algumas coisas mudaram, eu tinha medo de ficar contigo pois as nossas conversas metiam-me medo e a tua maneira de falar também. Falavas da vida como se ela tivesse sido injusta contigo, contavas-me coisas que eu nem sequer imaginava mas eu simplesmente dizia-te que não tinha nada a ver com isso e que não queria saber. O passado já lá ia e tu tinhas que saber perdoar e ao mesmo tempo pedir desculpa, pois tu também erraste bastante!
A culpa não era só tua e eu sabia disso.
Mas com o tempo conseguiste fazer com que eu voltasse a confiar em ti.
Dizias-me coisas que me davam vontade de chorar, eu sentia que tu querias mudar as coisas, que querias apagar o passado mas, já não dava. A minha Mãe tinha encontrado a estabilidade que procurava já a algum tempo e eu e a minha Irmã já não sofríamos como quando estávamos contigo.
Talvez tenha sido melhor assim, pensava eu, mas eu só pensava em nós as três, nunca pensei como é que tu poderias estar, como é que seriam as tuas noites sem nós, como é que seriam as tuas refeições à mesa sozinho, como é que tu te sentias!
Passado uns tempos eu e a minha Irmã passámos uns dias contigo em casa, lembro-me de estarmos os três abraçados a chorar à porta do teu quarto, chorámos com as poucas palavras que tu disseste mas que eram demasiado reais, ninguém me poderá tirar aquelas tuas palavras tão profundas e tão sentidas, tu disseste-nos "eu queria tanto que as minhas garotas tivessem sempre aqui comigo!". Foram dias que foram estranhos, já não estava habituada a dormir naquela casa, não estava habituada à escuridão que tinhas posto em ti próprio…
Lembro-me também de eu e a Adelaide estarmos a limpar o nosso quarto e recordarmos os momentos que lá tínhamos passado e então ela de repente diz "eu não quero que outra criança fique com este quarto" e eu sempre com o contra disse logo "eu espero que sim, espero que o Pai nos dê mais um irmão e tenha uma mulher que tome conta dele, pois a Mãe também está com outro homem, o Pai também tem direito de voltar a ser feliz!". O quanto eu desejava que isso acontecesse, acredito mesmo que se tu tivesses tido outra mulher não terias ido embora!
Nos dias que passámos em tua casa lembro-me de acordar contigo a tossir com muita frequência na casa de banho, tossias e ao mesmo tempo deitavas sangue pela boca. Tu já sabias o que tinhas, tu próprio já sabias que estavas mal de saúde, mas pelo que soube não te querias cuidar, porque não tinhas as tuas filhas contigo! Eu também já desconfiava que se passava alguma coisa de errado e também já sabia do que poderia ser.
Mas não podia fazer nada, insisti contigo para ires ao médico mas tu não querias ir, dizias que não era nada de mais mas sabias muito bem que era grave!
Enfim, muitas coisas que se passaram, muitas saudades me apertam o coração de cada vez que me lembro de ti e dos nossos momentos.
Nunca me irei esquecer das tuas palavras sempre a dizer que eu e a minha Irmã nos tínhamos que dar como verdadeiras Irmãs e que nos tínhamos de ajudar mutuamente.
Perto do natal fizeste um telefonema para a Adelaide e disseste-lhe que te demos uma rica prenda, que nunca pensaste que te faríamos uma coisa dessas mas a culpa não foi nossa, foi a Mãe que tinha feito tudo isso. Apesar de ser nossa Mãe não significa que não necessite da ajuda do Pai das suas filhas. Foste injusto com a Adelaide nem a deixaste explicar as coisas. Estávamos na escola e ela foi ter comigo e explicou-me o que se passou, então liguei-te. Meu Deus, agora penso e sei o quanto também fui injusta contigo, disse-te coisas que não merecias ouvir! Nem te deixei falar, não fui um exemplo de filha e desliguei-te o telefone na cara!
Passou janeiro e não tínhamos voltado a falar. Chegou fevereiro, continuava tudo na mesma sem falarmos e sem um único pedido de desculpa de ambas as partes.
Estava com a Adelaide no quarto da Mãe, ela estava no computador e eu estava sentada ao lado dela a beber uma caneca de leite enquanto falávamos do nosso dia de escola, o telemóvel toca e eu atendi. Era a nossa Avó, estava com uma voz muito fraca, parecia que estava a chorar e que tinha uma má notícia para dar. Ela perguntou se a Mãe estava em casa, eu disse que sim e ela pediu para eu lhe passar o telemóvel, p
erguntei o que se passava e ela insistiu para que eu passasse o telemóvel à minha Mãe. Eu perguntei se tinha morrido alguém, então ela quase sem voz pediu uma última vez que passasse o telemóvel. Já meia preocupada fui à varanda e entreguei o telemóvel e avisei que parecia que tinha morrido alguém, voltei para o quarto para junto da minha Irmã e ouvimos a minha Mãe a gritar. Ficámos a olhar uma para a outra e a nossa Mãe entra no quarto desfeita em lágrimas sem conseguir dizer nada e nós preocupadas só perguntávamos o que é que se passava, as únicas palavras dela eram "o vosso Pai, o vosso Pai…" Nós já a pensar o pior perguntávamos cada vez mais alto e aflitas "O NOSSO PAI O QUÊ?!", ela sem mais nenhuma escolha e cheia de sofrimento disse, "o vosso Pai morreu!".
Senti o mundo a desabar naquele preciso momento, chorava tanto, gritava tanto e chamava tanto por ti, como é que era possível aquilo estar-me acontecer?
Foste embora, nunca mais falámos, nunca mais ouvi a tua voz… Se eu pudesse voltar a trás nada do que te tinha dito te diria alguma vez, pois agora sofro com isso na consciência, sofro por pensar que foste embora triste e desiludido comigo, sofro com a maneira da tua morte, sozinho sem ninguém te ajudar quando mais necessitaste!
Pai, se me estás a ouvir eu agora peço-te desculpa por tudo o que te tenha feito ou dito de errado e desculpa por não ser a filha que desejaste que eu fosse, desculpa por eu te ter magoado, desculpa-me Pai!
Agora eu cresço com a maneira que a vida me ensina e como me desejaste ensinar. A vida é injusta nunca foi fácil, mas é assim que aprendemos a fortalecer e a ultrapassar barreiras que jamais alguma vez pensámos que conseguiríamos alcançar.
Tenho um novo desejo, quero poder voltar a estar nos teus braços e sentir que estou em segurança, que não me deixas cair e 
que não deixas que nada de mal me aconteça. Espero que isso aconteça numa outra vida e aí eu prometo que também tomarei conta de ti.
"Recordei com um sorriso e por momentos revivi cada instante mágico..."

.CSCV

3 comentários:

  1. Este texto fez com que eu chorasse baba e ranho, absolutamente magnifico,disses-te tudo o que te vinha na alma,e tenho a certeza absoluta que o teu pai esta super orgulhoso das filhas que tem.Tu es um exemplo para as tuas amigas...es o nosso pequeno anjocerbero xD
    amo-te Catia

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  2. "Deus escreve certo por linhas tortas." Acredite, onde o seu Pai estiver estará imensamente feliz por você, não se puna dizendo que nunca foste uma boa filha. Maravilhoso esse post, apesar do fato. Não chorei por pouco! Apenas um cisco caiu no olho por um momento. Seja feliz de agora em diante porque é o que o seu Pai mais quer.

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    1. Raul obrigada pelo teu comentário! (:
      E é bem verdade, Deus sabe sempre aquilo que faz...
      Eu sempre que leio este texto, acabo a chorar, afinal Pai é Pai :,x
      Mas acredito que ele neste momento esteja orgulhoso de mim, tal como eu estou dele! (:

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